sexta-feira, 23 de março de 2012

O Homem Sem Qualidades: uma leitura de mim mesmo


E se encontrássemos num pequeno texto a definição correcta de nós mesmos!

Pois foi isto mesmo que me aconteceu, conquanto amiúde explodam-me na face, no cérebro, no coração e no sexo partículas identificativas daquilo que sou.

Eis o texto:

“A expressão «o homem sem qualidades», embora de uso elegante, tem a desvantagem de não ter sentido imediato e de deixar perder a ideia de que o homem em questão não tem nada que lhe seja próprio: nem qualidades nem nenhuma substância. A sua particularidade essencial, diz Musil nas notas, é não ter nada de particular. É o homem qualquer e, mais profundamente, o homem sem essência, o homem que não aceita deixar-se cristalizar num carácter ou congelar numa personalidade estável: homem certamente privado de si, mas porque não quer acolher como algo que lhe seja particular esse conjunto de particularidades que lhe vem de fora e que quase todos os homens identificam ingenuamente com a sua pura alma secreta, em vez de verem nele uma herança alheia, acidental e opressiva.”

…e mais adiante…

“O homem sem particularidades, que não quer reconhecer-se na pessoa que é, para quem os traços que o particularizam não fazem dele nada de particular, jamais próximo do que lhe é mais próximo, jamais estranho ao que lhe é exterior, escolhe ser assim por um ideal de liberdade, mas também por viver num mundo – o mundo moderno, o nosso – em que os factos particulares estão sempre prestes a perder-se no conjunto impessoal das relações, de que só marcam a intersecção momentânea.”

Maurice Blanchot em O Livro por Vir (capítulo dedicado a O Homem sem Qualidades de Robert Musil)

Quatro exactos anos depois de ter sido publicada em Portugal a nova edição d’O Homem sem Qualidades de Robert Musil em tradução e organização de João Barrento, eis que por fim, aproveitando uma promoção, dou 48 mancos (em vez de 80) pelos 3 volumes da obra (quase 2000 páginas) e começo a relê-la. Tinha lido a edição com uns 30 anos editada pela Livros do Brasil, suficiente para perceber que se trata de uma das maiores (e mais desmedidas) obras da literatura universal além de me identificar sobremaneira no carácter do personagem central Ulrich. Mas nesta nova edição recupera-se a continuação do livro nunca acabado, com acrescento de capítulos já em provas que Musil deixou aquando da sua inesperada morte e nunca antes publicados em Portugal, bem como as possibilidades com que o autor perspectivava a continuação do livro além das notas que deixou sobre o próprio livro.
 

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