sábado, 30 de junho de 2012

Cosmópolis Vs. O Cavalo de Turim: ressonâncias improváveis

Em dois filmes ainda em exibição; os únicos, de resto, que merecem a minha atenção neste momento, e sob o fundo da actual crise mundial, curiosa a aproximação entre certas reflexões:

Em Cosmópolis de Cronenberg (texto de Don DeLillo), procura-se subtrair ao futuro o presente por ele sugado.

- Porque o tempo passou a ser um activo emp
resarial. Pertence ao sistema de mercado livre. O presente é mais difícil de encontrar. Está a ser sugado, eliminado do mundo para dar lugar ao futuro dos mercados livres e do potencial de investimento colossal. O futuro torna-se insistente. É por isso que algo vai acontecer em breve, talvez hoje… Para corrigir a aceleração do tempo e reconduzir a natureza ao seu trilho normal, mais ou menos.
(…)
- Sabes o que o capitalismo gera, segundo Marx e Engels?
- Os seus próprios coveiros.
- Mas estes não são os coveiros. Estas pessoas são uma fantasia gerada pelo mercado, não existem fora do seu âmbito. Mesmo que queiram recusar o mercado, pôr-se de fora, não têm para onde ir. Não há lado de fora.
(…)
- Quanto mais visionária é uma idéia, mais gente deixa para trás. Eis o que motiva este protesto. Visões de tecnologia e de riqueza. A força do ciber-capital que vai atirar pessoas para a serjeta, para vomitarem as tripas e morrerem. Qual é o grande defeito da racionalidade humana?
- Finge não ver o horror e a morte causados pelos estratagemas que engendra. Isto é um protesto contra o futuro. Querem normaliza-lo, impedi-lo de submergir o presente.
(…)
- Sabes aquilo que os anarquistas sempre acreditaram.
- O impulso que nos leva a destruir é um impulso criativo.
- Essa é também a pedra basilar do pensamento capitalista. Destruição compulsiva. As velhas indústrias têm de ser eliminadas sem piedade. Os novos mercados têm de ser conquistados à força. Os velhos mercados têm de ser reexplorados. Destruir o passado, criar o futuro.

...

Num tempo de juízo final onde já não há futuro e nenhuma possibilidade de redenção deixada ao Homem, porventura a consequência lógica do que se reflete em Cosmópolis; Béla Tarr em O Cavalo de Turim (tradução minha mais ou menos livre do inglês):

…Está tudo em ruínas! Tudo está corrompido.
Mas devo dizer que foram eles (os homens) que arruinaram e degradaram tudo.
Porque isto não é um tipo qualquer de cataclismo surgido da dita inocência humana.
Pelo contrário.
Tem que ver com o julgamento do homem sobre si próprio e Deus, atrevo-me a dizer, tem parte nisso. É mesmo a sua criação mais medonha.
Porque, bem vês, o mundo tem sido degradado.
E não interessa o que eu digo porque tudo o que eles conquistaram foi corrompido.
E uma vez que tudo o que conquistaram foi através de uma luta sorrateira e desleal; tudo degradaram.
Assim foi até à vitória final.
Conquistar / Degradar; Degradar / Conquistar.
O mesmo, ao longo de séculos. Isto e apenas isto.
Por vezes às escondidas, por vezes rudemente. Por vezes suavemente, por vezes brutalmente.
Tem sido sempre assim; mas apenas de uma forma: como ratazanas a atacar numa emboscada e a destruir tudo o que é nobre.
E assim temos estes campeões a governar a Terra e não há o mais pequeno recanto onde seja possível escondermo-nos deles porque tudo onde põe as mãos é deles. Mesmo coisas que pensávamos que não pudessem alcançar: o céu é deles, e são deles todos os nossos sonhos. O momento, a natureza, o silêncio infinito, até a imortalidade. Tudo lhes pertence. Tudo perdido para sempre.
E toda essa gente nobre e boa conquistada teve que perceber e aceitar que deixou de haver Deus ou Deuses. E deviam tê-lo percebido e aceite desde o início. Realizaram por fim que não existe nem bem nem mal. E perceberam que, se isto é assim, também eles não existiam. Terá sido esse o momento em que esses nobres se extinguiram.
Um foi um constante perdedor, outro um vitorioso.
Vitória / Derrota; Derrota / Vitória.

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